Maiorca, a maior das pequenas ilhas que
constituem o arquipélago das Baleares, no Mediterrâneo,
foi conquistada aos árabes em 1229 pelo rei Jaime I. O reino
de Maiorca, a partir de então, passou a integrar os territórios
das ilhas Baleares, junto com Roussillon e Montpellier, no Languedoc.
O pai de Lúlio tomou parte nessa brava conquista
e talvez por essa razão o rei, em 1249, escolheu Lúlio,
então com apenas uns quatorze anos [
1 ], para o cargo de pajem de seu
segundo filho, ainda criança, o futuro rei Jaime II. Poucos
anos depois passaria a exercer a função de mordomo
do príncipe. O próprio Lúlio conta-nos
[ 2 ] que nessa época sua vida
era frívola e dissoluta; gostava de compor trovas e poemas
para as moças do lugar, e facilmente se envolvia com elas.
Com vinte e dois anos, casou-se com Blanca Picany, a qual lhe deu
dois filhos, Domingos e Madalena. O matrimônio, contudo, não
tornou Lúlio mais sensato. "Apesar da ajuda que recebi dos
anjos e das pregações dos religiosos - diz na sua
autobiografia - cheguei a ser o pior dos homens e o maior pecador
desta cidade e de todas as redondezas" [ 3
].
Em 1265, aos trinta anos de idade, a vida de Lúlio
sofreu uma profunda modificação. Estando uma noite
entretido compondo rimas para uma dama que então - com palavras
suas - amava com loucura, apareceu-lhe de repente Jesus crucificado.
Durante os dias seguintes, esta aparição repetiu-se
outras quatro vezes. Lúlio, que nunca duvidou da autenticidade
dessa visão sobrenatural, experimentou uma súbita
conversão.
Dois grandes e elevados propósitos configuraram-se
então na sua alma arrependida. Dois grandes desejos, definitivos,
aos quais dedicaria todas as suas forças, toda a sua vida,
entregue, a partir de então, ao serviço de Cristo.
O primeiro foi aceitar e preparar-se para o martírio.
Este pensamento retornará repetidas vezes ao longo de sua
vida e, ao mesmo tempo, iluminará e explicará a generosa
atividade de Lúlio em favor dos outros. O segundo, consistia
em dedicar-se à conversão dos infiéis e incrédulos
para a verdade da santa fé católica. Estes dois propósitos
podem unificar-se num único: entregar-se à conversão
dos infiéis, arriscando, nessa empreitada, a própria
vida .
Sua intenção foi, portanto, muito
clara e impregnou sua extensa obra escrita. Se levarmos em conta,
além dessa determinação, o seu temperamento
muito impulsivo, teremos reunidos os elementos que explicam a vida
e a obra do filósofo maiorquino. Todos os seus escritos serão
ação, e não pura especulação
desinteressada.
Lúlio, pouco depois da conversão,
repara, com grande acerto, que não possui a ciência
necessária para uma empresa tão grande. Então,
uma terceira inspiração preenche de repente seu coração
e sua inteligência. Comporá um livro que será
o mais eficaz de todos no combate aos erros dos infiéis.
Mas isso ainda é pouco. Lúlio vê que, sozinho,
de pouco valeriam seus esforços. Tem então a idéia
de ir ao encontro do Papa, dos reis e príncipes cristãos
e exortá-los até obter deles a fundação
de diversos mosteiros onde religiosos e outras pessoas competentes
pudessem estudar as línguas dos infiéis. Uma vez preparados,
seriam enviados às terras dos descrentes para convencê-los
da verdade da fé católica, mediante a pregação.
Três meses mais tarde, decide vender parte
de seus bens e inicia uma série de peregrinações
a diversos santuários cristãos: Nossa Senhora de Rocamador,
Santiago de Compostela, na Galíza, etc. De volta, decide
ir a Paris a fim de preparar-se doutrinalmente para a refutação
das heresias, mas seus familiares e amigos (especialmente São
Raymundo de Penhaforte, a quem encontra em Barcelona), temendo que
se transformasse em um escolástico a mais como tantos de
seu tempo, aconselham-no a permanecer em sua terra natal. Assim
o faz Lúlio que, logo a seguir, começa a estudar a
língua árabe com um escravo muçulmano - que
tentará matá-lo - e a adentrar-se, de uma maneira
bastante autodidata, no conhecimento da filosofia oriental árabe
e judaica, buscando uma síntese com a escolástica
cristã do século XII. A essa tarefa dedicará
dez anos.
Por volta de 1272, Lúlio escreve, primeiro
em árabe e depois em catalão, o Llibre de Contemplació,
verdadeira enciclopédia de conhecimentos teológicos
e naturais, de grandes proporções. Consiste num apaixonado
monólogo que a criatura dirige ao seu Criador. Começa
considerando o Ser eterno, seus atributos e operações,
a criação e as virtudes de Cristo, entremeando todos
os argumentos com sublimes trechos sobre psicologia humana, moral,
teodicéia e apologética. Finalmente considera o amor,
a oração e a contemplação. Toda a linguagem
é fortemente expressiva e transbordante de lirismo. Esta
obra, que em certo sentido foi comparada á Summa canônica
de Penhaforte e à Summa Teológica do Aquinate,
contém já a matriz do original pensamento Luliano.
Aos quarenta anos de idade, Lúlio, com o
desejo de entregar-se completamente à contemplação,
retira-se para o monte Randa, nas suas propriedades, perto da cidade
de Maiorca. Passa, também, algumas temporadas no mosteiro
cisterciense de Santa Maria la Real. Será lá, na solidão
de Randa, que Deus iluminará poderosamente sua inteligência.
Verá a síntese universal - o sistema e também
o método - que depois descreverá nos seus escritos.
Foi essa profunda vivência que lhe valeu o título de
"Doutor Iluminado".
Na posse dessa sublime graça, Lúlio
escreve Art abreujada d' atrobar veritat, a primeira versão
da Ars, base de todo o seu sistema filosófico e teológico,
ou melhor, método universal para todas as ciências.
Nesta obra, Lúlio reduz todos os conhecimentos humanos a
um pequeno número de princípios e, depois, mostra
todas as relações possíveis que se podem dar
entre as idéias, mediante uma combinatória sustentada
em figuras geométricas. Até a sua morte, Lúlio
reelaborará sua "Arte" uma e outra vez, buscando simplificá-la
e torná-la acessível a todos. A verdade, porém,
é que não o conseguiu. Mas seria injusto não
ver nessa tentativa de síntese universal um esforço
sincero - que dura uma vida inteira -, por resolver o difícil
problema do conhecimento humano. Também não é
exato ver nessa Ars uma obra exclusivamente lógica;
a preocupação de Lúlio foi, em primeiro lugar,
metafísica: deseja um conhecimento unitário da realidade.
Lúlio, por essa obra, tem sido visto como um precursor longínquo
da logística moderna.
No ano de 1275, mais exatamente no dia 13 de março,
Lúlio, devido às insistentes queixas de sua esposa,
que não se conformava com o seu estilo de vida, decide nomear
um administrador de seus bens e abandona definitivamente a família.
Algum tempo depois, morto Jaime I, o Conquistador,
e tendo-lhe sucedido seu segundo filho, Jaime II, Lúlio apresenta-se
em Montpellier, sede da corte do rei. O soberano encarregou um frade
menor de examinar as obras de seu antigo mordomo, particularmente
o Llibre de Contemplació. O bom frade, diz a Vita
coetanea, constatou, não sem admiração,
que os escritos estavam repletos de ensinamentos e de verdadeira
devoção católica. A partir deste momento, Lúlio
será conhecido como "Mestre". Pouco tempo depois, obteve
a fundação, em Miramar, de um colégio de línguas
onde, sob sua direção, treze frades menores se preparavam,
estudando línguas - sobretudo o árabe - e a sua "Arte"'
para a evangelização dos infiéis. Aquela instituição,
de profundo intuito apostólico e num dos lugares mais belos
da ilha de Maiorca, conseguiu a aprovação do Papa
João XXI, o lisboeta Pedro Hispano, em 17 de outubro de 1276.
De 1276 a 1279, Lúlio dedicou-se ao ensino
e ao desenvolvimento de sua "Arte" e à contemplação.
Data dessa época sua Art demonstrativa. Foi lá,
em Miramar, que compôs os elevados pensamentos do Livro
do amigo e do Amado, ao estilo dos místicos sufis, diante
das suaves colinas maiorquinas mergulhando nas águas azuis
do Mediterrâneo.
Torna-se difícil determinar o que Lúlio
fez nos anos que se seguiram. Em parte, porque somente em 1293 começará
a definir nos seus livros o lugar e a data em que foram escritos.
Alguns autores pensam que, até 1282, teria dado a volta a
todo o mundo então conhecido, visitando sucessivamente Roma,
Alemanha - onde teria sido acolhido com benevolência por Rodolfo
I de Habsburgo -, o norte da Europa e o Oriente, até as Índias,
o Egito e o Magreb, de onde teria embarcado para a Inglaterra.
Parece que entre 1283 e 1285 escreveu em Montpellier
- residência habitual de seu protetor Jaime II -, a parte
essencial do Blaquerna, novela autobiográfica. É
uma de suas grandes obras literárias, em parte utópica,
pois nela defende uma ampla e profunda reforma social. Lúlio,
no Blaquerna, nos revela suas experiências de contemplativo,
suas angústias de apóstolo-filosófo, e seu
amor à natureza e à solidão. Traça uma
reforma completa da Igreja e apresenta na pessoa de Blanquerna o
ideal do matrimônio cristão, as normas de educação
dos filhos e as figuras do monge, do bispo e até do papa.
O capítulo 96, "De como o papa Blanquerna renunciou ao pontificado",
criou um sério problema entre os críticos: até
hoje não se conseguiu precisar se reflete a renúncia
de Celestino V, ou se a precedeu no tempo.
Existe suficiente fundamento para pensar que em
1278 Lúlio achava-se em Roma, enquanto o Papa Nicolau III
despedia uma embaixada de cinco frades menores franciscanos para
o Grão Khan da Tartária. Sabe-se que, então,
Lúlio propôs aos cardeais a delicada questão
de "se os cristãos seriam responsáveis pela ignorância
que os infiéis têm da santa fé católica"
[ 4 ].
Em 1285 escreve Los cent noms de Deu e os
poemas Plant de la Verge e Hores de Nostra Dona Maria. Nesse
mesmo ano, vai a Bolonha e no ano seguinte a Paris, onde teve lugar
a celebração do capítulo geral dos dominicanos.
Em 1287, parte para Roma onde chega pouco depois da morte de Honório
IV, em 3 de abril. Seu desejo de solicitar ao papa novas fundações
de escolas de línguas semelhantes à de Miramar, via-se
assim frustrado. Prevendo um conclave demorado, Lúlio dirige-se
a Paris onde o chanceler da Universidade, Bertaut de Saint-Denis,
em 1288, autoriza-o a ensinar sua "Arte" na Universidade de Paris.
No entanto, pouca acolhida tiveram as suas aulas
em Paris. Por esta razão, Lúlio pouco tempo se demorará
naquela cidade. É lá, todavia, que toma contato com
o averroísmo latino, doutrina filosófica que, vista
na sua globalidade, contrasta totalmente com a sua. Assim como Lúlio
pretendia unificar todo o saber, vendo o conjunto da realidade à
luz de uma única verdade, o averroísmo rasga em dois
a unidade do verdadeiro, com a sua teoria da dupla verdade, uma
filosófica e outra teológica. Daí em diante,
Lúlio combaterá com todas as suas energias essa heresia.
É lá, em Paris, cidade em que confluem
todas as correntes de pensamento do século XIII, onde Lúlio
escreverá a sua segunda novela doutrinal, o Félix
de les merevelles, que narra as viagens de um homem que procura
ansiosamente a verdade admirando-se do que vê.
Antes de partir de Paris, Lúlio escreverá
duas cartas, uma ao rei Filipe, o Belo, e outra à Universidade,
solicitando a instituição naquela cidade de um colégio
de línguas onde seus alunos pudessem aprender o grego, o
árabe e o tártaro. Referindo-se a esses pedidos, Lúlio
nos dirá no "Félix" que "desejava que tudo fosse submetido
à aprovação e à confirmação
do papa e, assim, a sua obra seria estável e permanente".
Seus bons propósitos, todavia, não tiveram a mínima
acolhida.
De volta a Montpellier, percebendo que sua "Arte"
era demasiadamente complicada para os mestres e alunos da Universidade,
reduziu de 4 para 3 o número de elementos de seu sistema
combinatório numa nova Art inventiva. Aquele fora
também um tempo de novas experiências místicas:
escreve L'art amativa, o Arbre de filosofia desiderat
e o Llibre de Santa Maria. Nessa cidade do sul da França,
Lúlio se encontra com o novo ministro geral da ordem franciscana,
Raymundo Jofré ou Gaufredi, que compartilhava o ideal de
reforma da Igreja por meio da pobreza e de uma intensa vida interior,
e no desejo de converter os infiéis, especialmente os muçulmanos.
No dia 26 de outubro de 1290, Jofré recomendará Lúlio
a todos os conventos franciscanos de Roma e da Apúlia, autorizando-o
a ensinar sua "Arte".
Contudo, as ânsias de receber o martírio
tornavam-se cada vez mais fortes. Lúlio quer ver transformados
em realidade seus planos missionários. Durante uma rápida
estada em Gênova traduz para o árabe sua Ars inventiva
veritatis e, depois, vai para Roma para, uma vez mais, solicitar
ao Papa Nicolau IV - o franciscano Jerônimo d'Ascoli, que
fora ministro geral dos menores franciscanos na época da
fundação do colégio de Miramar - a autorização
para instituir novos mosteiros destinados ao estudo das línguas
estrangeiras.
Lúlio pensava que esse papa seria mais favorável
a suas idéias pois a Cristandade toda estava então
comovida pela perda recente, em São João de Acre,
dos últimos territórios cristãos na Palestina.
Esperançado, dirige a Nicolau IV seu Quomodo Terra Sancta
recuperari potest e o Tractatus de modo convertendi infideles.
Porém, uma vez mais, nada conseguiu.
Depois de ter refletido sobre todos esses acontecimentos,
conta-nos sua autobiografia que Lúlio se dirigiu a Gênova
a fim de embarcar para terras sarracenas. Deseja, de uma vez por
todas, experimentar se é capaz de realizar sozinho entre
eles algo de bom, discutindo com seus sábios e convertendo-os
à fé católica com a ajuda da "Arte" que Deus
lhe havia inspirado.
Ora, é natural que um homem que luta, e
que luta durante muitos anos, acumule ao longo da vida muitas vitórias,
e também muitas derrotas. Será lá, em Gênova,
à idade de sessenta anos, que Lúlio passará
pela maior crise espiritual de sua vida. Temendo ser assassinado
pelos sarracenos, ou colocado talvez na cadeia pelo resto de seus
dias, obcecado pelo medo, resolve ficar em terra. A partir desse
momento, cairá sobre ele um estado de escuridão interior,
de dúvidas e de escrúpulos, que beira o desespero.
Por fim, Lúlio supera a prova e parte sozinho para Tunis,
em 1293, feliz de entregar-se ao ideal apostólico que o consome
e, talvez, pela possibilidade de selar sua fé com o próprio
sangue.
Em Tunis começa a discutir em plena rua
com os sábios da cidade. Um deles denunciou-o rapidamente
ao califa Abu-Hafs, que convoca um conselho que condenará
Lúlio à pena de morte. Graças à intervenção
de um chefe mouro, que possuía alguma influência sobre
o califa, a pena capital é comutada pela de expulsão.
Antes, porém, de ser levado ao navio, ao ser retirado da
cadeia, Lúlio será vexado, escarnecido e golpeado.
Pouco tempo depois desembarca em Nápoles
onde dará aulas sobre sua "Arte", até a eleição
do papa Pietro di Morrone, em 5 de agosto de 1294, que adotou o
nome de Celestino V. No dia 13 de dezembro do mesmo ano, contudo,
Celestino V renunciará. Lúlio, antes, expôs
ao papa seus planos para a conversão dos infiéis,
particularmente dos tártaros, que, conforme pensava, se unidos
aos cristãos, viriam a ser uma ajuda decisiva contra os muçulmanos.
O novo papa, Bonifacio VIII, deveria ser coroado
em Roma a 25 de janeiro de 1295. Para lá parte novamente
Lúlio, alegre e infatigável como sempre, e encaminha
a Santa Sé uma nova petição. Desta vez, poderá
dirigir a sua palavra perante o Sacro-Colégio dos Cardeais.
É nesse tempo, do 29 de setembro de 1295 a 1o. de abril do
ano seguinte, que escreverá o Arbre de Ciência,
extensa enciclopédia organizada sob o símbolo da árvore,
que contém inúmeros trechos de grande valor literário.
Nem Celestino V nem seu sucessor, lhe prestam atenção.
É então quando, desanimado pelo aparente fracasso
de todas as suas tentativas, escreve o Desconhort, talvez
sua melhor obra poética. Trata-se de um poema lírico-didático
de alto valor psicológico e autobio_gráfico. Nele,
Lúlio nos revelará sua profunda decepção.
De Roma parte novamente para Gênova e de
lá para Montpellier, corte do rei de Maiorca. Dirige-se a
Paris, onde permanecerá de dezembro de 1297 a julho de 1299
tomando parte na violenta polêmica entre os pensadores católicos
e seus adversários, os averroístas árabes.
Lúlio redige a Declaratio Raymundi per modum dialogi,
onde comenta e refuta as proposições averroistas já
condenadas em 1277 por Estevão Tempier. Mas Lúlio,
que pensava que a ciência não é o único
modo de vencer os que estão errados, desejando convertê-los
"por modo de amor", escreve seu Arbre de filosofia d'amor,
belíssimo tratado místico de alto valor literário.
Desiludido de Paris, despede-se com o Cant de
Ramon, onde mais uma vez o heróico maiorquino conta suas
dores com um lirismo deslumbrante.
Contudo deve dizer-se que esses lamentos não
significam, de maneira alguma, um arrefecimento ou um abandono de
seus propósitos fundamentais. Muito pelo contrário,
a partir dessa época Lúlio iniciará o período
mais agitado de sua vida. Seus escritos se multiplicarão
inexplicavelmente; suas viagens se sucederão com um frenesi
incrível. É surpreendente a capacidade de trabalho
desse velhinho de barbas brancas que já beira os setenta
anos.
Maiorca recebe com alegria seu filósofo
viajante. De posse de uma licença do rei, Lúlio doutrina
judeus e muçulmanos nas sinagogas e nas mesquitas. Estava
escrevendo uma suma filosófica sob o título de Començaments
de Philosophia, quando recebe a notícia - com um ano
de atraso - da derrota que os tártaros infligiram aos muçulmanos
em dezembro de 1299. A cristandade exulta de alegria com a esperança
de recuperar o Santo Sepulcro e toda a Palestina. Lúlio não
se conteve e embarcou para Chipre nos primeiros meses de 1301. Ò
chegada fica informado de que as notícias foram otimistas
demais, porque o triunfo tártaro não fora tão
grande e os muçulmanos estavam já reagindo. O que
fazer? Sem perda de tempo, Lúlio começa seu trabalho.
Prega e disputa sobre a fé cristã com os sarracenos,
jacobitas, nestorianos e gregos. Suplica ao rei de Chipre, Henrique
II, que convoque oficialmente esses infiéis para uma controvérsia
pública e se oferece para visitar o sultão de Babilônia
e os reis da Síria e do Egipto para instruí-los na
fé católica. Em Famagusta é muito bem recebido
pelo Grão-Mestre da Ordem dos Templários, que o hospeda
na sua própria casa.
Depois de adentrar-se até a Armênia
Inferior, onde contrai uma doença, volta para Gênova
e, durante a viagem de navio, escreve o Llibre dels mil proverbis.
Em 1303 encontra-se de novo em Gênova traduzindo para o catalão
sua Nova Logica. Em outubro o vemos em Montpellier, concluindo
o Liber de disputatione fidei et intellectus, diálogo
sobre a possibilidade da demonstração dos mistérios
da fé. Novamente em Gênova, escreve o Liber de fine
ou De expugnatione Terrae Sanctae, a obra mais importante
das que então se escreveram sobre o polêmico tema da
conquista da Terra Santa.
Numa primeira época, Lúlio afirmava
que a evangelização dos infiéis deveria ser
essencialmente uma obra do amor, realizada principalmente pela inteligência.
Daí seu desejo de propor aos sábios e aos homens de
cultura de outras religiões a verdade católica. Iluminar,
assim, em primeiro lugar os espíritos a fim de preparar os
corações para a infusão da graça. A
conversão das almas, pensava Lúlio, não podia
ser senão um ato de liberdade. Mais tarde, perante o fracasso
de seus esforços pacíficos, aperfeiçoará
a sua posição e afirmará que, se o adversário
recusar o diálogo, a cristandade terá o direito de
o obrigar, pela força, a aceitá-lo. É isso
o que nos dirá no seu célebre Liber de fine.
Por esta altura, abril de 1305, a Santa Sé
tinha ficado de novo vaga, desde o 7 de julho do ano anterior. Agora
a execução dos projetos de Lúlio iria depender,
sobretudo, do rei de Catalunha e Aragão, Jaime II, cada vez
mais poderoso na cristandade.
Assim sendo, uma vez eleito Clemente V, primeiro
papa de Avinhão, no dia 5 de junho, o paciente Lúlio
parte para Barcelona e entusiasma seu rei com os projetos de uma
nova cruzada em Andaluzia. Acompanha-o a Montpellier, onde ambos
se encontram com o novo papa, que ia a caminho de Lyon para ser
coroado. Mais tarde, sobe também a Lyon para convencer o
próprio papa. Lá começará sua Ars
generalis et ultima, um dos resumos mais interessantes e completos
daquela Art abreujada d'atrobar veritat, dos longínquos
tempos de Randa.
Mais uma vez, o papa e seus cardeais não
lhe prestam muita atenção e Lúlio, após
uma terceira visita a Paris e uma estada de quase dois anos na sua
terra natal, embarca para Bugia, na Argélia.
Perante o espanto de todos, Lúlio, desejoso
de execrar as heresias, começa a gritar pelas ruas da cidade
que a lei de Maomé é falsa e enganosa e que se dispõe
a prová-lo. O grande mufi da cidade, autoridade religiosa
e judiciária, o interpela e se estabelece entre os dois uma
profunda discussão filosófico-teológica. Lúlio,
usando a máxima bonum est diffusivum sui (é
próprio da natureza do bem difundir-se), argumenta que não
há contradição em pensar que Deus Pai, a bondade
por excelência, gere da sua bondade o Filho igualmente bom
e que de ambos proceda o Espírito Santo. Seu adversário,
estupefato com tal argumentação - que, afinal, destruia
a idéia averroísta da criação eterna
do mundo -, não sabendo o que replicar, dá ordens
para que se conduza imediatamente Lúlio à prisão,
mas promulga um decreto proibindo atentar contra a sua vida, dado
que a multidão muçulmana esperava-o fora, para linchá-lo.
Lúlio, permaneceu uns seis meses na cadeia,
mas continua lutando, e o faz porque tem fé. Lá mesmo
começa a escrever a Disputatio Raymundi et Hamar Sarraceni,
que contém o eco de suas controvérsias religiosas.
O rei Halid I, mandou expulsar Lúlio, que teve de embarcar
à força num navio que se dirigia a Gênova. Como
final dessa odisséia, o navio naufragou perto de Pisa, morrendo
inclusive alguns passageiros. Lúlio salvou-se, mas perderam-se
todos seus pertences, inclusive a biblioteca. Parece que, muito
prudentemente, possuía mais de um exemplar de suas obras,
ou que, ao menos, não as carregava todas nas suas agitadas
viagens. Certamente teria seu acervo distribuído por Montpellier,
Maiorca e talvez também Gênova, locais onde trabalhava
e divulgava as cópias de seus escritos.
Chegado a Pisa, reescreve a obra começada
e perdida no naufrágio e termina também a Ars generalis
et ultima, que começara em Lyon.
A cidade de Pisa interessa-se muito por estes planos
de cruzada e o seu Conselho escreve ao papa Clemente V. Gênova
também oferece-lhe uma ajuda de vinte e cinco mil florins
pela causa da Terra Santa. O rei Jaime II, em Montpellier, fará
o mesmo. Lúlio, bem disposto por esses apoios de última
hora, dirige ao papa seu novo livro De acquisitione Terrae Sanctae,
onde expõe mais um ousado projeto: a conquista de Constantinopla,
para acabar com o cisma grego.
Uma vez mais, tudo malogrou. Lúlio, todavia,
não se furtando à sua obrigação, parte
decidido para Paris onde, apesar de sua idade avançada, sua
atividade aumentará cada vez mais. Retoma a luta contra os
averroístas e suas súplicas aos grandes em favor da
Terra Santa. Ao todo escreverá umas trinta obras breves,
entre as quais destaca-se o Liber de natali parvuli pueri Iesu,
com temas natalinos, e o Liber lamentationis philosophiae,
onde, na presença do rei Felipe, o Belo, a Filosofia se lamenta
de que os averroístas a tenham separado da Teologia.
De acordo com a tradição, foi no
fim dessa temporada de Paris [ 5
] que Lúlio obteve uma declaração de quarenta
mestres e bachalerandos em Artes e Medicina atestando que o método
lógico de sua Ars brevis não continha nada
contrário à fé católica. As aulas dadas
em Paris, portanto, não foram infrutuosas, embora seus numerosos
escritos anti-averroístas não tenham conseguido obter
a condenação oficial dos erros dessa filosofia.
Por essa época anunciava-se já o
início do Concílio de Vienne (out.1311 - maio 1312).
Mais uma vez cheio de esperança, para lá se dirige
e, pelo caminho, escreve seu poema Lo consili, com mil e
duzentos versos, e sua Disputatio clerici et Raymundi phantastici
na qual resume assim a sua vida: "Trabalhei durante quarenta e cinco
anos incitando os governantes da Igreja e os príncipes cristãos
ao bem público. Agora sou velho, sou pobre; mas persevero
no mesmo propósito, e com a graça de Deus, nele me
manterei até a morte".
O concílio, pelo menos, atende desta vez
alguns dos seus pedidos. Decreta que os cavaleiros sanjoanistas
promovam a cruzada e erige as cátedras de árabe, grego,
hebraico e caldeu nas quatro grandes universidades de Paris, Oxford,
Bolonha e Salamanca.
De volta do concílio, retira-se de novo
a Maiorca, mas não precisamente para descansar. Encontra
tempo para escrever diversos opúsculos, um manual de pregação,
uma compilação de 150 sermões e três
escritos apologéticos. A princípios de 1313, já
com mais de oitenta anos, embarca para a Sicília e durante
a viagem inicia a De compediosa contemplatione, que terminará
em Messina.
Na primavera de 1314, esse "varão de desejos"
[ 6 ] retorna
à sua ilha e de lá embarca na nau que o levará
outra vez às costas da Barbária. Acompanham-no ao
cais os grandes da cidade, uma multidão de amigos e dois
franciscanos. Volta às mesmas terras onde, oito anos antes,
foi maltratado e encarcerado. Mas Lúlio não teme a
morte; tem seus argumentos e, sobretudo, o amor do seu Amado.
Em Tunis, redige o Ars Consilii e mais quinze
opúsculos de controvérsia, e prega nas vias públicas.
De lá dirigiu-se a Bugia onde a multidão alvoroçada
o apedreja e o deixa meio morto, abandonado nas ruas. O exame médico
de seus restos mortais feito em 5 de dezembro de 1611, com vistas
ao processo de sua canonização, constatou o fato.
Recolhido por uns genoveses que se dirigiam à Europa, Lúlio,
todavia, morre em pleno Mediterrâneo, perto das costas de
sua querida Maiorca, já nos inícios de 1316.
Quanto custa entender uma vida como a que acabamos
de conhecer ! Os homens, acostumados a pensar tudo quanto passa
pela sua mente e a deixar que o seu coração se impressione
pelas circunstâncias variáveis da vida, tendem a complicar
demais as coisas. Somos a própria instabilidade. Se não
nos corrigimos, corremos o risco de transformar nossa vida numa
contradição. As vidas dos grandes homens, ao contrário
- como a de Lúlio - são simples: neles é como
se existisse um único pensamento, sempre idêntico,
querendo abranger todas as verdades; e uma única intenção,
extraordinariamente pura, ordenando toda a vida para o Bem. Lúlio,
ao longo dos anos, esforçou-se por purificar sua sabedoria
a fim de que, limpa de todo erro ou ignorância, unificasse,
num simples olhar, toda a verdade cognoscível. Ao mesmo tempo,
seus inúmeros trabalhos, lutas e afãs, parecendo multidão,
na realidade refletem apenas uma só coisa: um amor puro e
empenhado, Lúlio foi um homem simples que viveu de um único
pensamento e de um único amor [ 7
].
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